‘Quanto mais nós nos afastamos de Deus, mas lascada a humanidade fica’, diz Dom Flávio

O bispo que está há quase seis anos em Santarém, lembra que a oração e o amor ao próximo nos aproximam de Deus.
Foto: Sílvia Vieira/G1

À frente da diocese de Santarém, no oeste do Pará, desde o dia 15 de dezembro de 2012, Dom Flávio Giovenale prepara o seu coração para assumir uma nova missão, no Acre. Ele fica em Santarém até 11 de dezembro, após o encerramento das festividades de Nossa Senhora da Conceição. A oração faz parte desse preparação e em entrevista ao G1, Dom Flávio destaca que amar ao próximo, praticar a caridade e rezar são atitudes que aproximam as pessoas de Deus, e contribuem para uma cultura de paz e mundo melhor. Confira a entrevista

Dom Flávio, todos os dias nós temos notícias de coisas ruins acontecendo no mundo, como pais abusando dos próprios filhos. Isso em parte se deve à falta de temor a Deus e de oração. Nossa Senhora pediu para que rezássemos o terço. Qual a importância dessa oração?

Muita gente pensa que o terço é uma oração Mariana, mas verdade é uma oração Cristológica. O centro do terço é Cristo. A palavra terço vem porque eram 150 Ave Marias, lembrando 150 salmos e a inspiração inicial, e o terço, porque se reza 50. Depois o Papa João Paulo II acrescentou mais 50 Ave Marias. Os mistérios que nós refletimos são sempre relativos a Jesus, a anunciação do anjo, a primeira viagem missionária de Jesus na barriga de sua mãe, depois Jesus que nasce, Jesus que é apresentado ao templo, Jesus que é encontrado no templo aos 12 anos, depois Jesus que é batizado, Jesus que faz o primeiro milagre, a pregação de Jesus.

Pegando os 20 mistérios, só tem um que é sobre a Assunção de Nossa Senhora. Os outros são todos refletindo a missão de Maria, que é aquela que nos leva a Jesus.

O terço é uma oração de repetição, da normalidade. Você pode estar no ônibus e vai rezando o terço. Muitas vezes quando vou dirigindo, rezo o terço.

Quanto mais nós nos afastamos de Deus, mas lascada a humanidade fica.

A repetição não é uma coisa enjoativa, é coisa que faz parte da nossa vida. Quantas vezes levamos o garfo à boca? Quantas vezes o nosso coração bate ao longo do dia? E a insistência de Nossa senhora nas aparições para que a humanidade reze o terço não é para honrar a ela, é para horar a Jesus Cristo.

Em relação as notícias ruins, o temor a Deus não é medo de Deus, mas o receio de ofender a Deus. A primeira Carta de João fala que, quem diz que ama a Deus, mas não ama seus irmãos, é mentiroso, porque Deus está presente nos outros. Os pecados nunca são diretamente contra Deus, são sempre contra os outros. A maioria dos casos de abusos contra crianças acontece no seio familiar e são praticados por quem mais deveria proteger as crianças, os seus pais.

O senhor anda muito pelo município, nas comunidades do interior, e tem uma proximidade grande com os jovens e as crianças. Existe uma preocupação com esse público?

Dentro da Igreja Católica eu pertenço à congregação dos Salesianos, cujo carisma principal é a juventude. Então, faz parte do meu DNA espiritual. Para mim, a dimensão pedagógica não só no sentido escolar, mas de preocupação de como educar a juventude em todos os sentidos é uma coisa que é nata e que foi desenvolvida também através dos estudos. Pra mim, a juventude é a vida presente, não é só o futuro, e é muito sensível aos desafios atuais. E ajuda a nós de uma certa idade, a não nos acomodar.

O coral que cantou na chegada do Círio das Crianças era composto por nove crianças ao redor dos 10 anos e elas não tinham papel, tinham celular com os textos dos cantos. Eu sou de um tempo que quando recebíamos um livro novo nós abríamos para cheirar a tinta do livro, nós somos da cultura do papel. Para as crianças de hoje a cultura é digital. E a forma como eles manifestam os sentimentos e os valores, também é diferente.

 

Nós precisamos acreditar nos jovens e não apenas na juventude. O mundo atual tem uma verdadeira idolatria pela juventude, mas o jovem é desprezado.

Eu sou idoso, tenho que aceitar a minha condição com a beleza de ser idoso. E trabalho para que os jovens possam se tornar idosos, para que não morram jovens nem por drogas, nem por acidentes, nem por avacalhações, que possam ter vida plena no futuro. E antes dos jovens, as crianças, e temos que educá-las bem.

Temos muitas crianças e jovens presentes na igreja. Mas há também uma grande parcela perdida para as drogas. De que forma as famílias podem atuar para afastar as crianças e os jovens das drogas e trazê-los para perto de Deus?

Não tem uma fórmula. Tem famílias ótimas que às vezes perdem por vários motivos os filhos e as filhas para as drogas, porque a criatividade do demônio através dos traficantes é infinita. Inventam drogas cada vez mais fortes, que causam logo dependência. Inventam formas de cativar e apresentar a droga como um risco gostoso e bonito. E acho que o trabalho de prevenção na maioria das vezes está errado, porque a gente fala: ‘Cuidado que é perigoso!’ É perigoso, mas é isso que o adolescente gosta. Gosta do perigo, por isso sai de moto levantando o pneu, por isso gosta de esportes radicais, do risco.

Sem querer, nós acabamos instigando o jovem a experimentar. E eles vão com aquela ilusão de apenas experimentar, mas quando eles tentam sair, não conseguem mais. E o grande problema das famílias hoje é a inversão dos papéis. Fazer com que sejam os filhos a mandar na família. Se vai a uma pizzaria, perguntam para o filho onde ele quer sentar e o que quer comer. É besteira. Mas, se você acostumar um filho a atender tudo o que ele quer, está se criando um problema.

Podemos chamar as crianças de príncipes e de princesas, mas esse príncipe e essa princesa têm que saber que acima deles tem um rei e uma rainha, o pai e a mãe.

É preciso impor limites, porque o limite é aquilo que salva o rio. Se não existissem as margens, viraria lodo, lama. Enquanto o rio tiver as beiras, ela continua sendo rio. Quem ama, educa. E educação também pressupõe colocar limites.

Santarém recebeu um número grande de refugiados venezuelanos, e a igreja católica teve um papel importante no acolhimento dessas famílias, mas ainda há uma resistência de parte da população. Falta ainda o ser humano ser mais caridoso, mais solidário?

O povo normalmente é muito caridoso. A dificuldade é quando o problema não se revolve só por meio da caridade. Muitas vezes é preciso atacar as causas. Mas em outras situações, a dificuldade é não fazer uma caridade sistemática. Não vamos dar ajuda porque se pode dar trabalho.

Aquelas crianças ou adultos, pessoas com deficiência atendidas pela Apae, não é que se tenha esperança de curar daqui a um mês. Então, muitas vezes fazer uma campanha é fácil. Com a Pastoral do Menor a mesma coisa. O problema é que se cria uma fábrica de crianças e adolescentes em situação de risco social, e todo ano tem que ter a campanha Natal Sem Fome.

No caso dos refugiados, eles foram expulsos das suas terras pelo governo. Então, é um problema muito maior, porque eles não têm para onde voltar.

São três níveis de caridade. O primeiro é dar o peixe, às vezes precisamos. O segundo é ensinar a pescar. E o terceiro nível é atacar as causas da pobreza, da miséria. Por exemplo, para consertar um cano não precisa de um engenheiro. Então, poderia se popularizar os cursos técnicos profissionalizantes, por exemplo, para preparar serventes de pedreiro, mestres de obra.

Está se aproximando o dia da sua partida para o Acre. Como é que está o seu coração?

Para esse dia e para todos os festejos até o dia 8, estamos com o coração cheio de alegria porque estamos vendo que está tendo uma movimentação e uma organização grande, e também pelo significado, uma vez que este ano é o Círio 100. Portanto, queremos que seja um Círio mais bonito ainda que o normal, para dar ânimo para o futuro. Por isso foi escolhido o tema que nos lança para o futuro e não para trás. Por que o risco quando se faz comemorações é de lembrarmos do passado sem planejar o futuro.

‘Maria, mãe dos caminhantes’ é para dizer que ela caminhou conosco durante 100 anos e agora vamos continuar a caminhada e não vamos parar. Então, será o Círio para nos dar ânimo e até criatividade para pensar os desafios atuais e futuros e enfrenta-los com serenidade. Neste ponto estou muito alegre e tranquilo.

Agora em relação a mudanças, a gente nunca sabe o que nos espera. Eu nunca trabalhei no Acre, e cada lugar tem a sua particularidade, então fica uma certa apreensão. Mas em todo os lugares por onde passei sempre fui bem acolhido, deu para me entrosar, criar amizades boas e criar também a possibilidade de um trabalho para a Glória de Deus.

Qual a mensagem que o senhor deixa para as pessoas que vão participar do Círio 100?

Vamos nos preparar para caminhar com Maria. O tema deste ano é ‘Maria, mãe dos caminhantes’. Quem são os caminhantes? Somos nós. Então, vamos caminhar com Maria rumo a Jesus e como Jesus, rumo aos outros. O nosso objetivo sempre é seguir a Cristo, e por sermos discípulos de Cristo devemos amar uns aos outros, ajudar uns aos outros. Então, uma boa caminhada para todos!

Blog Agora Notícia 

Fonte G1Santarem Pará 

waldemir

Radialista/Blogueiro,